quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pandemia




E paramos. Paramos em meio a uma viagem em que não tínhamos data de retorno, uma viagem que nem sabemos o destino final. Fomos obrigados a parar. Obrigados a nos enxergar e a nos olhar de uma forma como nunca ousamos antes. Eu tinha um caminho traçado para mim nessa parte da minha viagem completamente diferente. Um caminho em que algumas pessoas existiam por ali, e que outras ainda não apareciam nele. Encontrei um percalço grande, que foi chamado de pandemia. Ninguém sabia como passar por ela, ninguém sabia nem como desviar, ninguém nem nunca tinha visto. Fui obrigada a me sentar no deck do meu barco, e apenas esperar. Esperar que eu ou alguém descobrisse como passaríamos por ele, e enquanto isso só me restou mudar o meu olhar. Parei, passei a mão pelo meu rosto. Senti minha pele ainda quente do nervoso com essa parada abrupta, senti a falta do frescor. Frescor de viver a vida como eu mais amo. Respirei fundo, contando meus famosos e tão usados 5 segundos, e me permiti olhar. Olhei para mim. Olhei para os meus amigos. Para minha família. Para minha vida. E ali eu parei. Parei e lembrei de cada vez que eu sorri com eles, de cada vez que eles me trouxeram bochechas e barrigas doloridas de gargalhadas. Lembrei de cada música cantada e compartilhada, de cada coreografia e dança feita, de cada festa, de cada amanhecer, de cada encontro, de cada troca. Eu amo estar com pessoas, eu amo me sentir viva. Coloquei a mão no meu coração, senti ele batendo de uma forma mais rápida do que eu reconheço, e vi que as dúvidas dessa parada estavam começando a gerar aquela famosa palavrinha: ansiedade. E eu queria deixar essa difícil viagem, o mais confortável que fosse para mim. Respirei fundo, olhei por cima do meu grande percalço, percebi um fio de luz, um ventinho vindo ao meu encontro, e me agarrei ali, por alguns minutos. Eu quero, eu desejo, eu almejo isso, eu espero, eu me contento com essa pausa. Enquanto eu esperava, assisti inúmeros sóis se pondo, enxerguei vários pássaros passando sobre mim, que me trouxeram reflexões infinitas e essenciais para que eu conseguisse depois, um dia, seguir viagem. E eu permaneci ali, esperando feliz, com memórias infinitamente boas, gostosas e leves, permaneci aguardando para poder continuar minha viagem, meu trajeto já feito, pronto apenas para mim. De uma certeza eu tinha: Quando esse percalço sair, e me permitir continuar até que eu chegue ao meu destino final, vou estar ainda mais forte, ainda mais pronta, ainda mais feliz. Meu coração estará cheio, mesmo estando sozinha por alguns instantes, e assim, meu caminho permanecerá intacto, sem que eu precise me desviar dele. Permaneço aqui, olhando, observando, lembrando, saudando, amando, desejando, almejando e esperando, mas sempre feliz, com meu fio de luz e o meu amado frescor, viva, e com meu melhor sorriso, de gratidão!