
Há alguns meses me vi solteira após 6 anos de namoro intenso. Solteira em um mundo em que eu não conhecia, e não me reconhecia de início. No começo foi dolorido, preguiça de conhecer pessoas novas, de começar tudo de novo, a intimidade, as trocas, preguiça de me magoar novamente, revolta, dor, negação, me vi traumatizada, alegando que nunca mais iria namorar novamente, jurando não me apaixonar nunca mais, com aqueles lemas de que homem nenhum vale nada, que homem é tudo farinha do mesmo saco. Me vi entrando em relações rápidas, vazias, e ao mesmo tempo intensas, leves, tranquilas, mas que no fim levavam ao mesmo lugar. Me recusava a me apaixonar, a curtir alguém, a gostar, a querer estar junto, não queria aquilo pra mim, queria curtir minha nova fase, sem maiores eventos, e isso me fazia mal.
E então comecei a perceber a geração em que me encontro: a geração da liberdade. Mas nem sempre é aquela liberdade boa, que literalmente nos liberta, nos faz alçar vôo, nos acalenta, nos reconforta, mas uma liberdade pesada, cheia de tabus, onde as pessoas estão tão vazias que não conseguem mais se conectar a outra, se sabotam. Não conseguem mais se apaixonar, não se entregam, não se permitem sentir a paixão, o calor de um novo amor, não se permitem se apegar, se unir a outra alma, não se permitem.
As pessoas se encontram tão traumatizadas, que se reconhecem pelo trauma. " - Oi, já fui traído, e você?" é a mais comum entre nós, onde passamos a nos reconhecer apenas por medos, que são gritados a todo vapor, sem vergonha, mas com dor. Comecei a perceber, que de tantos machucados, os corações se fecharam de tal forma onde ninguém se considera alguém com direito a se apaixonar, com direito a se entregar. Todos temos medo do que pode acontecer, o romantismo deixou de existir, quem é romântico é otário, está perdendo tempo, dando espaço a baladas, bebidas, bocas que se encontram, corações que se afastam, trocas de palavras e de histórias de vidas com facilidade, risadas que escondem a dor, corações que se afastam, olhares que se cruzam, mas opa, não posso.. corações que se afastam, trocas de intimidades, trocas de mensagens, trocas de toques, troca de sexo, troca de almas, mas opa, não posso.. corações que se afastam, e o ciclo se repete. E o que isto leva? mais traumas.
O ser humano, para se defender de uma possível nova relação, onde ele antes de conhecer aquela outra alma, já intitula que irá sofrer no final das contas, e sendo assim, generaliza uma situação afastando aquilo que poderia ter sido, não necessariamente o amor de sua vida, mas um dos seus amores, afasta um coração que estava disposto a cuidar de seu trauma, e quando faz isso, aquela outra alma que estava tão disposta, fortalece seu trauma de relações, procurando novamente relações vazias, com medo de se magoar de novo, e de novo, e de novo.. de novo falando "não deu certo dessa vez, de novo.. " e o ciclo retorna.
Ninguém consegue ter uma relação gostosa que não precisa virar um namoro, por medo de que ela vire. Ninguém consegue dormir de conchinha ou abraçados após o sexo que já ficou sério demais. Ninguém consegue ir ao cinema, sair pra jantar, porque já ficou sério demais. Ninguém é de ninguém, ninguém quer ser de ninguém.
Não se consegue amar, não se consegue cuidar, pois ao mesmo tempo que nos achamos "livres" estamos presos em uma geração vazia que não consegue compartilhar a alma, o dia a dia, o amor, e assim, corações se afastam, e vão se escoando entre os dedos, perdendo a graça, o sorriso gostoso, o carinho, o abraço.. a vida! Onde vamos parar? Se todo mundo poupasse os outros do que não fariam a si mesmos, com certeza, amor não seria um risco, e sim, uma sorte de quem o tivesse.
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