Há algum tempo atrás ouvi de um namorado que eu tinha rugas nos olhos quando sorria. Lembro até hoje que aquilo me causou um desconforto chato e eu nem consegui entender o porquê. Temos uma cobrança enorme em cima de nós mesmas por uma beleza sem defeitos. Nos comparamos, nos cobramos, nos maltratamos. Ao invés de nos cuidarmos por saúde, queremos fazer tudo por estética. Queremos não ter sardas, não ter rugas, não termos um pontinho fora do lugar. Mas qual lugar seria esse? Em qual lugar eu me coloco no que é exigido a mim? Como posso fazer as pazes com meu espelho interior e exterior? Depois de muito tempo, descobri que minhas sardas são parte de mim, descobri que minha barriga jamais vai ser sarada pois eu tenho amor e prazer em comer e beber com meus amigos e familiares, descobri que posso ser saudável e feliz ao mesmo tempo com meu corpo, sem entrar no padrão de magreza imposto, apenas no que me faz bem quando me olho no espelho. Descobri que tenho sim muitas cicatrizes de algumas cirurgias e machucados feitos ao decorrer dos anos, mas elas que me permitiram estar viva e saudável escrevendo aqui. Descobri que minhas rugas dos olhos são exatamente de tanto sorrir, eu rio, eu gargalho, e meu corpo reconhece isso e deixa sua marca ali. Descobri que sendo eu mesma eu sou muito mais realizada e feliz do que se eu viver ao redor de me enquadrar em um padrão que não me liberta, que nunca me libertou, e que se eu acolher e abraçar as marcas que o meu corpo tem pelas minhas histórias de vida, minhas memórias serão eternas, marcadas em mim. Descobri que quando eu me olho no espelho, eu as vejo, e ver cada uma delas faz eu agradecer pela vida que eu tive, e que eu ainda tenho, e que ainda terei algumas novas marcas por aqui. Descobri que sou linda, mesmo assim, e que o outro quando me enxergar com todas as minhas marcas, vai me ver linda aos seus olhos também. Me descobri. Em meio a tantos espelhos eu estava ali, e eu permanecerei insistindo em ficar.
Caminho meio gente, meio fada. Pé no além, outro na estrada.
domingo, 19 de julho de 2020
sexta-feira, 17 de julho de 2020
Meu Coroninha
Tive uma experiência bem maluca nesse último mês. Em uma terça-feira de manhã, meu pai não acordou bem e foi ao médico. Quando retornou, o médico havia pedido o exame do Covid-19. Fomos fazer, com receios, cheios de medos, e deu positivo. A sensação que sentimos eu nunca havia sentido na minha vida. Impotência, medo, insegurança, perguntas, dúvidas, questionamentos. Um certo desespero para conseguir médico, remédios, e uma cautela grande para não preocupá-lo demais. As noites viraram, os medos chegaram a uma proporção nunca sentida. Medo de perder. Mas um medo real, existente, dolorido. Alguns dias depois, comecei a ter sintomas. Fomos todos da minha família fazer o exame. Testamos todos positivo. Sentir que você está, dentro de você, com o vírus de uma pandemia mundial que já havia matado meio milhão de seres humanos, é muito maluco. Novamente, impotência, insegurança, medo, receios, alerta. Precisava cuidar dos meus pais, mas não poderia esquecer de olhar para mim também, precisava me cuidar também agora. Cada dorzinha sentida era um susto. Respirei fundo, e resolvi conversar com meu coroninha. Fechei os olhos, e imaginava ele como uma flor, e disse á ele que o chamaria somente assim. Sabia que ele ia vir apenas para uma amizade rápida, uma passagem breve, sem nos trazer dores. Ele não me queria mal, ele não tinha escolha, ele precisava de pessoas para que ele continuasse sobrevivendo, e eu poderia ser uma pessoa passageira na vida dele, assim como temos muitas em nossas vidas. Que nos trazem ensinamentos enormes, que nos abrem caminhos, que nos fazem crescer profundamente com cada dor sentida. Eu sabia que ele ia vir para me ensinar algo, e ali eu comecei uma relação bacana com meu coroninha. Ele me acordou por alguns dias com muita dor de cabeça, parece que me avisava que eu tinha que levantar e tomar meus medicamentos. Ele não me deixava dormir, a insônia era chata, e me fez entender tudo do que eu estava tendo e sentindo, de tanto que eu lia sobre o assunto. Ele fez eu me frear no trabalho, e perceber que eu precisava aprender a falar não também para os meus pacientes, e me respeitar, descansar, parar, deitar, dormir. Ele fez eu perceber meu corpo, e ver o quanto uma vida saudável de prevenção era importante. Ele me dava moleza nas pernas, e um desânimo muito grande. Eu tive que parar, e olhar para dentro. Eu tive que diminuir meu ritmo, pois até tomar banho me deixava exausta. Eu valorizei meu sono, minha cama, meu travesseiro. Eu valorizei pedir ajuda carinhosa de amigos, ajuda de escuta, de companheirismo, de parceria. De ligarmos por vídeo chamada e falarmos bobagem por horas. Ele me fez olhar a vida. Com outros olhos. E ao mesmo tempo que eu conversava com ele, ele me lembrava que tinha um parceiro da família dele dentro de cada membro da minha família. Ele me fez ter conversas importantíssimas dentro da minha casa, mesmo que difíceis. Ele me fez pedir para que meu pai se abrisse, e me contasse seus medos. Ele me fez ficar sentada e deitada ao lado do meu pai conversando sobre política, machismo, culinária e amizades. Ele me fez ver que os meus pais estão envelhecendo, e que preciso olhar mais do que já olhava por eles e cuidá-los de toda maneira possível que eu puder. Ele me fez ver que a distância nessas horas pode ser crucial para uma calmaria de estar presente na doença familiar. Ele me fez conversar com meu irmão sobre nosso medo de perder nossos pais, e o que faríamos quando eles envelhecessem, e como agiríamos com nosso medo. Foram tantos questionamentos juntos, tantas vivências, que depois que meu parceiro coroninha começou a ir embora junto com seus sintomas, eu tive que parar para agradecê-lo. Agradeci por ter sido forte e ter lidado com tudo isso da melhor forma que eu consegui. Agradeci por ter sido leve, diante do que ele poderia ter causado em minha família. Agradeci por ter passado por isso junto á eles. Agradeci por poder ajudar tantos pacientes com minha resiliência e minha positividade, me usando de exemplo para eles se acalmarem. Agradeci por me sentir amada por tantas pessoas, e por perceber que muita gente se preocupava comigo. Agradeci por ter decidido passar a quarentena com meus pais, e poder estar com eles nesse momento. Agradeci, mesmo tendo pegado um vírus de uma pandemia mundial, eu agradeci. E percebi que o coroninha queria me alertar de muitas situações e sentimentos importantes, mesmo que dolorosos e difíceis, eu cresci anos em dias. Sentimentos e situações que eu preferia não enxergar, mas ele me forçou, como um bom amigo. Obrigada, coroninha. Nossa relação foi rápida, exaustiva, chata, tóxica, abusiva, mas eu passei por ela, e passei bem, e vou sair dela melhor ainda. Sou grata por você ter sido meu amigo. Que sua morada possa continuar leve em outros seres humanos, apenas ensinando-os como você me ensinou, e que eles possam te ouvir e te entender como eu me esforcei para tal. Que a gente não se encontre mais por aí.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Tenha amores
Já tive muitos amores nessa vida, e nem sempre sou compreendida por isso. Escuto que sou muito intensa, que sinto demais, que me emociono demais, que sofro demais. Mas eu sempre gostei de sentir. Sentir o frio na barriga de conhecer um novo alguém, aquela dúvida gostosa de como será que essa pessoa vai influenciar a minha vida. Para mim, pequenos encontros são tão significativos quanto os grandes e duradouros. Pessoas que passaram pela minha vida por pouco tempo, me trouxeram sentimentos e histórias que fazem parte do meu ser hoje. Sentir que eu posso ser um pouco mais na vida do outro, sempre me fez acreditar em ser eu mesma em todos esses amores, mesmo eles "não dando certo". Já amei por um dia, já amei por uma noite, já amei por um mês, dois, um ano, seis anos, e todos esses amores se transformaram na intensidade que flui dentro de mim todos os dias. Lembranças gostosas, paixões avassaladoras, lembranças rápidas, mas nem por isso menos importantes. Lembro do cara que gostava de entrelaçar os dedos, que me olhou tão fundo nos meus olhos que parecia que me enxergava por completo. Que quando encontrávamos nada mais existia ao redor, ele largava tudo para curtir o momento apenas comigo. Ele me levou pães de queijo na cama na primeira vez que dormimos juntos. E enquanto eles assavam, ligou uma música de Jazz antigo que eu nunca imaginaria que embalaria tão bem a nossa história. Ficamos horas conversando ao som de músicas que eu nunca pensaria que ecoariam aquela cena. Ele me acordou com músicas ao som da natureza, abrindo uma frestinha de luz na janela para, segundo ele, me enxergar. Esse cara me ensinou que eu merecia ser cuidada em cada pontinho de um encontro, e que ele estava ali inteiramente comigo, mesmo que por uma noite que fosse. Eu também tive um amor, que me buscava todas as tardes de quarta para irmos assistir futebol no estádio, que me abraçava forte para entrarmos na arquibancada sem que ninguém mexesse comigo. Que me comprava chopp's gelados feliz da vida que eu bebia uma boa cerveja assistindo um bom futebol com ele. Que me levava com o maior orgulho para os encontros com seus amigos, e ficava feliz em não ter que se preocupar comigo, pois eu fiz amizade com toda a sua turma de uma forma muito leve. Que me ligava quando não saíamos juntos por estar com saudades, e fazia de tudo para dar um jeito de me ver logo depois. Ele me ensinou o quanto parceria e companheirismo é essencial em uma relação, e que ela pode ser leve, sem nenhum esforço desgastante. Tive também, o cara que me ensinou a simplicidade de uma relação. O dividir a vida, dividir os problemas, a rotina, a correria, conversar o dia inteiro, saber do outro, se abrir por inteiro, sem medo. Assistir filme no fim de semana, bebendo cerveja e comendo sashimi, ouvindo música boa, sentados na cadeira de ferro da sala, rindo, falando bobagem, apagando juntos na cama depois de uma semana exaustiva. Com ele aprendi o carinho de se dividir um espaço, de estar muito tempo no mesmo quadradinho, e mesmo assim, as horas virarem minutos. Foram tantos pequenos amores, que eu nunca concordei com falar que "nós não demos certo". Demos certo sim, pelo tempo que foi, mas demos. Entrelaçamos dedos e histórias, ensinamos e aprendemos, nos conectamos para nos desconectar de outras histórias, nos perdemos e nos encontramos, amamos e pegamos ranço na mesma intensidade, porquê ser intenso é isso, deixar que um ser estranho te descubra, te enxergue, e te leve a se conhecer cada vez mais, sem medo de que a intensidade te leve para um lugar obscuro, pois de escuridão a paixão não tem nada, muito pelo contrário, ela nos acende, nos aquece, nos ilumina, nos preenche. Ame, sem medo, apenas ame. Se permita, se acenda.
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