domingo, 19 de julho de 2020

Marcas



    Há algum tempo atrás ouvi de um namorado que eu tinha rugas nos olhos quando sorria. Lembro até hoje que aquilo me causou um desconforto chato e eu nem consegui entender o porquê. Temos uma cobrança enorme em cima de nós mesmas por uma beleza sem defeitos. Nos comparamos, nos cobramos, nos maltratamos. Ao invés de nos cuidarmos por saúde, queremos fazer tudo por estética. Queremos não ter sardas, não ter rugas, não termos um pontinho fora do lugar. Mas qual lugar seria esse? Em qual lugar eu me coloco no que é exigido a mim? Como posso fazer as pazes com meu espelho interior e exterior? Depois de muito tempo, descobri que minhas sardas são parte de mim, descobri que minha barriga jamais vai ser sarada pois eu tenho amor e prazer em comer e beber com meus amigos e familiares, descobri que posso ser saudável e feliz ao mesmo tempo com meu corpo, sem entrar no padrão de magreza imposto, apenas no que me faz bem quando me olho no espelho. Descobri que tenho sim muitas cicatrizes de algumas cirurgias e machucados feitos ao decorrer dos anos, mas elas que me permitiram estar viva e saudável escrevendo aqui. Descobri que minhas rugas dos olhos são exatamente de tanto sorrir, eu rio, eu gargalho, e meu corpo reconhece isso e deixa sua marca ali. Descobri que sendo eu mesma eu sou muito mais realizada e feliz do que se eu viver ao redor de me enquadrar em um padrão que não me liberta, que nunca me libertou, e que se eu acolher e abraçar as marcas que o meu corpo tem pelas minhas histórias de vida, minhas memórias serão eternas, marcadas em mim. Descobri que quando eu me olho no espelho, eu as vejo, e ver cada uma delas faz eu agradecer pela vida que eu tive, e que eu ainda tenho, e que ainda terei algumas novas marcas por aqui. Descobri que sou linda, mesmo assim, e que o outro quando me enxergar com todas as minhas marcas, vai me ver linda aos seus olhos também. Me descobri. Em meio a tantos espelhos eu estava ali, e eu permanecerei insistindo em ficar. 

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