sexta-feira, 17 de julho de 2020

Meu Coroninha

    


    Tive uma experiência bem maluca  nesse último mês. Em uma terça-feira de manhã, meu pai não acordou bem e foi ao médico. Quando retornou, o médico havia pedido o exame do Covid-19. Fomos fazer, com receios, cheios de medos, e deu positivo. A sensação que sentimos eu nunca havia sentido na minha vida. Impotência, medo, insegurança, perguntas, dúvidas, questionamentos. Um certo desespero para conseguir médico, remédios, e uma cautela grande para não preocupá-lo demais. As noites viraram, os medos chegaram a uma proporção nunca sentida. Medo de perder. Mas um medo real, existente, dolorido. Alguns dias depois, comecei a ter sintomas. Fomos todos da minha família fazer o exame. Testamos todos positivo. Sentir que você está, dentro de você, com o vírus de uma pandemia mundial que já havia matado meio milhão de seres humanos, é muito maluco. Novamente, impotência, insegurança, medo, receios, alerta. Precisava cuidar dos meus pais, mas não poderia esquecer de olhar para mim também, precisava me cuidar também agora. Cada dorzinha sentida era um susto. Respirei fundo, e resolvi conversar com meu coroninha. Fechei os olhos, e imaginava ele como uma flor, e disse á ele que o chamaria somente assim. Sabia que ele ia vir apenas para uma amizade rápida, uma passagem breve, sem nos trazer dores. Ele não me queria mal, ele não tinha escolha, ele precisava de pessoas para que ele continuasse sobrevivendo, e eu poderia ser uma pessoa passageira na vida dele, assim como temos muitas em nossas vidas. Que nos trazem ensinamentos enormes, que nos abrem caminhos, que nos fazem crescer profundamente com cada dor sentida. Eu sabia que ele ia vir para me ensinar algo, e ali eu comecei uma relação bacana com meu coroninha. Ele me acordou por alguns dias com muita dor de cabeça, parece que me avisava que eu tinha que levantar e tomar meus medicamentos. Ele não me deixava dormir, a insônia era chata, e me fez entender tudo do que eu estava tendo e sentindo, de tanto que eu lia sobre o assunto. Ele fez eu me frear no trabalho, e perceber que eu precisava aprender a falar não também para os meus pacientes, e me respeitar, descansar, parar, deitar, dormir. Ele fez eu perceber meu corpo, e ver o quanto uma vida saudável de prevenção era importante. Ele me dava moleza nas pernas, e um desânimo muito grande. Eu tive que parar, e olhar para dentro. Eu tive que diminuir meu ritmo, pois até tomar banho me deixava exausta. Eu valorizei meu sono, minha cama, meu travesseiro. Eu valorizei pedir ajuda carinhosa de amigos, ajuda de escuta, de companheirismo, de parceria. De ligarmos por vídeo chamada e falarmos bobagem por horas. Ele me fez olhar a vida. Com outros olhos. E ao mesmo tempo que eu conversava com ele, ele me lembrava que tinha um parceiro da família dele dentro de cada membro da minha família. Ele me fez ter conversas importantíssimas dentro da minha casa, mesmo que difíceis. Ele me fez pedir para que meu pai se abrisse, e me contasse seus medos. Ele me fez ficar sentada e deitada ao lado do meu pai conversando sobre política, machismo, culinária e amizades. Ele me fez ver que os meus pais estão envelhecendo, e que preciso olhar mais do que já olhava por eles e cuidá-los de toda maneira possível que eu puder. Ele me fez ver que a distância nessas horas pode ser crucial para uma calmaria de estar presente na doença familiar. Ele me fez conversar com meu irmão sobre nosso medo de perder nossos pais, e o que faríamos quando eles envelhecessem, e como agiríamos com nosso medo. Foram tantos questionamentos juntos, tantas vivências, que depois que meu parceiro coroninha começou a ir embora junto com seus sintomas, eu tive que parar para agradecê-lo. Agradeci por ter sido forte e ter lidado com tudo isso da melhor forma que eu consegui. Agradeci por ter sido leve, diante do que ele poderia ter causado em minha família. Agradeci por ter passado por isso junto á eles. Agradeci por poder ajudar tantos pacientes com minha resiliência e minha positividade, me usando de exemplo para eles se acalmarem. Agradeci por me sentir amada por tantas pessoas, e por perceber que muita gente se preocupava comigo. Agradeci por ter decidido passar a quarentena com meus pais, e poder estar com eles nesse momento. Agradeci, mesmo tendo pegado um vírus de uma pandemia mundial, eu agradeci. E percebi que o coroninha queria me alertar de muitas situações e sentimentos importantes, mesmo que dolorosos e difíceis, eu cresci anos em dias. Sentimentos e situações que eu preferia não enxergar, mas ele me forçou, como um bom amigo. Obrigada, coroninha. Nossa relação foi rápida, exaustiva, chata, tóxica, abusiva, mas eu passei por ela, e passei bem, e vou sair dela melhor ainda. Sou grata por você ter sido meu amigo. Que sua morada possa continuar leve em outros seres humanos, apenas ensinando-os como você me ensinou, e que eles possam te ouvir e te entender como eu me esforcei para tal. Que a gente não se encontre mais por aí.

Um comentário:

Unknown disse...

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