segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Nossos tipos

   

    Cada pessoa na nossa vida traz á tona uma pessoa nossa. Temos vários tipos de Eu's dentro de nós, mas infelizmente nem sempre temos coragem de abrir todos eles para todas as pessoas. Posso ter um eu mais fofa, carinhosa, entregue, que se abre, que se joga, que se envolve, que demonstra, e ao mesmo tempo tenho um eu fechada, que não quer se relacionar, que se coloca em posição de ataque, de defesa, que se diz muito bem sozinha. Tenho um eu mãe, um eu tímida, um eu totalmente solta, um eu médica, um eu que cuida, que acolhe, um eu justiceira, um eu muito brava, um eu as vezes arrogante, irritante, um eu também boba e ingênua. Cada passo que uma relação nova na nossa vida nos faz dar, um desses nossos eu's aparece. Eu posso ser totalmente sem filtro com alguém, e com outra pessoa filtrar cada palavrinha que saia da minha boca. A nossa percepção diante de qual Eu estaremos sendo com cada pessoa, é que nos faz elencar o ranking delas de importância nas nossas vidas. As vezes damos importância tamanha para uma pessoa que nos traz o pior, e que deveria estar em posições inferiores a outras que tiram nossa mais bela luz de dentro de nós, e é importante percebermos isso antes que permaneçamos tanto tempo sendo apenas um tipo de Eu, que passamos a esquecer os outros e deixá-los ali, escondidos e abafados. Quando alguém me tira o meu melhor Eu, o melhor que eu posso dar, quando alguém me faz ser feliz em ser apenas Eu, sem travas, amarras, segredos, suposições, quando eu posso ser de todos os meus Eu's um pouco, sem ser criticada e colocada para baixo, aquela pessoa tem que ser um das minhas pessoas. E ao contrário, quando o esforço de abafar a minha luz é maior do que o reconhecimento do brilho que ela tem, algo está errado. Quais são os seus Eu's? Quem são as pessoas na sua vida que te tiram o seu melhor? E existe alguém que tirou ou ainda tira o seu pior? O que te faz estar ali, e não procurar pessoas que te queiram aberta, demonstrando todos os Eu's que existem ai dentro? Faça um teste. Abra os seus Eus, os descubra, os mostre, e veja quem você quer que permaneça ao seu lado, te garanto que surpresas virão. Foque nelas, por favor. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A Louca

     


    E do medo de ser louca, me tornei, de forma negativa, uma. De tanto ouvir que minhas atitudes eram, loucura, acreditei. De tanto achar, que sentir e ser intensa, que querer amar, querer confiar, querer estar junto, querer reciprocidade, querer sinceridade, querer paixão, querer viver tudo que podia em cada situação, que ser quem eu sou, fosse loucura, deixei de ser. Passei a me desculpar por tudo que fazia. Pedia desculpas por tentar entender o outro, por me abrir, por demonstrar sentimentos. Pedi desculpas por sentir saudades, por querer presença. Pedi desculpas por querer agradar, por me querer ali, perto, quente, próximo. Até que um dia eu ouvi que loucos eram os loucos que me chamavam de louca, e que esses loucos estavam querendo apagar uma parte da minha luz interna, que brilhava e pulsava sempre tão feliz, e que estava começando a se apagar e a se aninhar dentro de mim. E aí, fiquei louca, de forma muito positiva. Quis me abrir para o mundo todo ver até as borboletas coloridas que saíam daqui de dentro. Quis mostrar as lágrimas e o quanto me envolvo. Quis mostrar que eu sinto porque eu amo o outro e suas fraquezas e forças, porque dividir sua vida com outro ser, é muito mais do que apenas falar. É troca, é fidelidade, é conhecimento, é agregamento, acolhimento, é trocar ideias e ideais, é deixar que outra pessoa te veja no auge do seu ser, e que ela te ame por isso. É se apaixonar, se encantar, é imaginar um futuro e criar uma história, é sorrir lembrando de um pequeno pedaço de uma minúscula história que você teve com outro ser. É amar com todo o coração, e permitir que o outro te ame também. É cuidar, lutar, acarinhar, agradar, é dividir. Dividir amor realmente é só para loucos. Dividir significa somar, dividir significa replicar, ganhar duplamente dentro de uma relação que são somente dois seres. E quem não é louco, realmente vai ver isso como loucura. E eu sinto muito, por você nunca ter conseguido ser como eu. Mesmo no sofrimento, a gente se engradece com cada coração vazio que a gente preencheu um pouquinho que seja. A gente amadurece, com cada machucado calejado que o nosso coração fica. Mas a gente sente, e sente muito, e é feliz por sentir. Louca, mas louca com o coração cheio e repleto de histórias loucas também, e são elas que me fizeram assim, eu. 

Encanto

  


      Encantamento. Sensação de deslumbramento, admiração, grande prazer que se tem como reação a alguma boa qualidade do que se vê, ouve, percebe. E de um encanto que eu não acreditava mais existir, me veio você. Assim, despretensioso, calado, na sua. Sem ser demais, e nada de menos. Com todo esforço para me mostrar quem você era, com todo esforço para me mostrar que você sabia um pouco quem eu era. Veio com respeito, educação, carinho, conversa, sem esses exageros que a nossa geração parece só conhecer uma única forma de se conhecer. Não foi pela atração física, não foi pela química, pelo toque. Foi por conhecer. E te conhecendo, me encantei. E no encanto, me vi nervosa como nunca mais tinha me conhecido assim. Boca seca, nó na garganta, barriga estranhando. Pensando no que falar, em como agir. Eu, sempre tão solta, tão segura de mim, me peguei perdida em como tinha parado ali, em como olhar para você me deixar com as mãos geladas. Você me desmontou em dois dias. Absurdo para um pessoas tão independente como eu. Foram apenas dois dias com você, no meio de pessoas da sua vida, e não da minha. Dois dias em que nossos lábios nem se conheceram. Foram apenas toques sutis, olhares demonstrando interesses, abraços com vontades, vontades que nem conseguimos falar e expressar, mas sabíamos que existiam. Dois dias de trocas, e você se foi. Sem saber quando nos veremos de novo, em meio a flertes, a ansiedades, teremos que esperar. Esperar para viver e sentir algo que nós dois sabemos que queremos, mas como até o encanto foi inesperado, porquê a história não seria? Continuo aqui, nessa espera gostosa, mas também aflitiva, de querer me encantar um pouco mais com você. Me encanta, mas fica, garoto. 

domingo, 19 de julho de 2020

Marcas



    Há algum tempo atrás ouvi de um namorado que eu tinha rugas nos olhos quando sorria. Lembro até hoje que aquilo me causou um desconforto chato e eu nem consegui entender o porquê. Temos uma cobrança enorme em cima de nós mesmas por uma beleza sem defeitos. Nos comparamos, nos cobramos, nos maltratamos. Ao invés de nos cuidarmos por saúde, queremos fazer tudo por estética. Queremos não ter sardas, não ter rugas, não termos um pontinho fora do lugar. Mas qual lugar seria esse? Em qual lugar eu me coloco no que é exigido a mim? Como posso fazer as pazes com meu espelho interior e exterior? Depois de muito tempo, descobri que minhas sardas são parte de mim, descobri que minha barriga jamais vai ser sarada pois eu tenho amor e prazer em comer e beber com meus amigos e familiares, descobri que posso ser saudável e feliz ao mesmo tempo com meu corpo, sem entrar no padrão de magreza imposto, apenas no que me faz bem quando me olho no espelho. Descobri que tenho sim muitas cicatrizes de algumas cirurgias e machucados feitos ao decorrer dos anos, mas elas que me permitiram estar viva e saudável escrevendo aqui. Descobri que minhas rugas dos olhos são exatamente de tanto sorrir, eu rio, eu gargalho, e meu corpo reconhece isso e deixa sua marca ali. Descobri que sendo eu mesma eu sou muito mais realizada e feliz do que se eu viver ao redor de me enquadrar em um padrão que não me liberta, que nunca me libertou, e que se eu acolher e abraçar as marcas que o meu corpo tem pelas minhas histórias de vida, minhas memórias serão eternas, marcadas em mim. Descobri que quando eu me olho no espelho, eu as vejo, e ver cada uma delas faz eu agradecer pela vida que eu tive, e que eu ainda tenho, e que ainda terei algumas novas marcas por aqui. Descobri que sou linda, mesmo assim, e que o outro quando me enxergar com todas as minhas marcas, vai me ver linda aos seus olhos também. Me descobri. Em meio a tantos espelhos eu estava ali, e eu permanecerei insistindo em ficar. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Meu Coroninha

    


    Tive uma experiência bem maluca  nesse último mês. Em uma terça-feira de manhã, meu pai não acordou bem e foi ao médico. Quando retornou, o médico havia pedido o exame do Covid-19. Fomos fazer, com receios, cheios de medos, e deu positivo. A sensação que sentimos eu nunca havia sentido na minha vida. Impotência, medo, insegurança, perguntas, dúvidas, questionamentos. Um certo desespero para conseguir médico, remédios, e uma cautela grande para não preocupá-lo demais. As noites viraram, os medos chegaram a uma proporção nunca sentida. Medo de perder. Mas um medo real, existente, dolorido. Alguns dias depois, comecei a ter sintomas. Fomos todos da minha família fazer o exame. Testamos todos positivo. Sentir que você está, dentro de você, com o vírus de uma pandemia mundial que já havia matado meio milhão de seres humanos, é muito maluco. Novamente, impotência, insegurança, medo, receios, alerta. Precisava cuidar dos meus pais, mas não poderia esquecer de olhar para mim também, precisava me cuidar também agora. Cada dorzinha sentida era um susto. Respirei fundo, e resolvi conversar com meu coroninha. Fechei os olhos, e imaginava ele como uma flor, e disse á ele que o chamaria somente assim. Sabia que ele ia vir apenas para uma amizade rápida, uma passagem breve, sem nos trazer dores. Ele não me queria mal, ele não tinha escolha, ele precisava de pessoas para que ele continuasse sobrevivendo, e eu poderia ser uma pessoa passageira na vida dele, assim como temos muitas em nossas vidas. Que nos trazem ensinamentos enormes, que nos abrem caminhos, que nos fazem crescer profundamente com cada dor sentida. Eu sabia que ele ia vir para me ensinar algo, e ali eu comecei uma relação bacana com meu coroninha. Ele me acordou por alguns dias com muita dor de cabeça, parece que me avisava que eu tinha que levantar e tomar meus medicamentos. Ele não me deixava dormir, a insônia era chata, e me fez entender tudo do que eu estava tendo e sentindo, de tanto que eu lia sobre o assunto. Ele fez eu me frear no trabalho, e perceber que eu precisava aprender a falar não também para os meus pacientes, e me respeitar, descansar, parar, deitar, dormir. Ele fez eu perceber meu corpo, e ver o quanto uma vida saudável de prevenção era importante. Ele me dava moleza nas pernas, e um desânimo muito grande. Eu tive que parar, e olhar para dentro. Eu tive que diminuir meu ritmo, pois até tomar banho me deixava exausta. Eu valorizei meu sono, minha cama, meu travesseiro. Eu valorizei pedir ajuda carinhosa de amigos, ajuda de escuta, de companheirismo, de parceria. De ligarmos por vídeo chamada e falarmos bobagem por horas. Ele me fez olhar a vida. Com outros olhos. E ao mesmo tempo que eu conversava com ele, ele me lembrava que tinha um parceiro da família dele dentro de cada membro da minha família. Ele me fez ter conversas importantíssimas dentro da minha casa, mesmo que difíceis. Ele me fez pedir para que meu pai se abrisse, e me contasse seus medos. Ele me fez ficar sentada e deitada ao lado do meu pai conversando sobre política, machismo, culinária e amizades. Ele me fez ver que os meus pais estão envelhecendo, e que preciso olhar mais do que já olhava por eles e cuidá-los de toda maneira possível que eu puder. Ele me fez ver que a distância nessas horas pode ser crucial para uma calmaria de estar presente na doença familiar. Ele me fez conversar com meu irmão sobre nosso medo de perder nossos pais, e o que faríamos quando eles envelhecessem, e como agiríamos com nosso medo. Foram tantos questionamentos juntos, tantas vivências, que depois que meu parceiro coroninha começou a ir embora junto com seus sintomas, eu tive que parar para agradecê-lo. Agradeci por ter sido forte e ter lidado com tudo isso da melhor forma que eu consegui. Agradeci por ter sido leve, diante do que ele poderia ter causado em minha família. Agradeci por ter passado por isso junto á eles. Agradeci por poder ajudar tantos pacientes com minha resiliência e minha positividade, me usando de exemplo para eles se acalmarem. Agradeci por me sentir amada por tantas pessoas, e por perceber que muita gente se preocupava comigo. Agradeci por ter decidido passar a quarentena com meus pais, e poder estar com eles nesse momento. Agradeci, mesmo tendo pegado um vírus de uma pandemia mundial, eu agradeci. E percebi que o coroninha queria me alertar de muitas situações e sentimentos importantes, mesmo que dolorosos e difíceis, eu cresci anos em dias. Sentimentos e situações que eu preferia não enxergar, mas ele me forçou, como um bom amigo. Obrigada, coroninha. Nossa relação foi rápida, exaustiva, chata, tóxica, abusiva, mas eu passei por ela, e passei bem, e vou sair dela melhor ainda. Sou grata por você ter sido meu amigo. Que sua morada possa continuar leve em outros seres humanos, apenas ensinando-os como você me ensinou, e que eles possam te ouvir e te entender como eu me esforcei para tal. Que a gente não se encontre mais por aí.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Tenha amores

    Já tive muitos amores nessa vida, e nem sempre sou compreendida por isso. Escuto que sou muito intensa, que sinto demais, que me emociono demais, que sofro demais. Mas eu sempre gostei de sentir. Sentir o frio na barriga de conhecer um novo alguém, aquela dúvida gostosa de como será que essa pessoa vai influenciar a minha vida. Para mim, pequenos encontros são tão significativos quanto os grandes e duradouros. Pessoas que passaram pela minha vida por pouco tempo, me trouxeram sentimentos e histórias que fazem parte do meu ser hoje. Sentir que eu posso ser um pouco mais na vida do outro, sempre me fez acreditar em ser eu mesma em todos esses amores, mesmo eles "não dando certo". Já amei por um dia, já amei por uma noite, já amei por um mês, dois, um ano, seis anos, e todos esses amores se transformaram na intensidade que flui dentro de mim todos os dias. Lembranças gostosas, paixões avassaladoras, lembranças rápidas, mas nem por isso menos importantes. Lembro do cara que gostava de entrelaçar os dedos, que me olhou tão fundo nos meus olhos que parecia que me enxergava por completo. Que quando encontrávamos nada mais existia ao redor, ele largava tudo para curtir o momento apenas comigo. Ele me levou pães de queijo na cama na primeira vez que dormimos juntos. E enquanto eles assavam, ligou uma música de Jazz antigo que eu nunca imaginaria que embalaria tão bem a nossa história. Ficamos horas conversando ao som de músicas que eu nunca pensaria que ecoariam aquela cena. Ele me acordou com músicas ao som da natureza, abrindo uma frestinha de luz na janela para, segundo ele, me enxergar. Esse cara me ensinou que eu merecia ser cuidada em cada pontinho de um encontro, e que ele estava ali inteiramente comigo, mesmo que por uma noite que fosse. Eu também tive um amor, que me buscava todas as tardes de quarta para irmos assistir futebol no estádio, que me abraçava forte para entrarmos na arquibancada sem que ninguém mexesse comigo. Que me comprava chopp's gelados feliz da vida que eu bebia uma boa cerveja assistindo um bom futebol com ele. Que me levava com o maior orgulho para os encontros com seus amigos, e ficava feliz em não ter que se preocupar comigo, pois eu fiz amizade com toda a sua turma de uma forma muito leve. Que me ligava quando não saíamos juntos por estar com saudades, e fazia de tudo para dar um jeito de me ver logo depois. Ele me ensinou o quanto parceria e companheirismo é essencial em uma relação, e que ela pode ser leve, sem nenhum esforço desgastante. Tive também, o cara que me ensinou a simplicidade de uma relação. O dividir a vida, dividir os problemas, a rotina, a correria, conversar o dia inteiro, saber do outro, se abrir por inteiro, sem medo. Assistir filme no fim de semana, bebendo cerveja e comendo sashimi, ouvindo música boa, sentados na cadeira de ferro da sala, rindo, falando bobagem, apagando juntos na cama depois de uma semana exaustiva. Com ele aprendi o carinho de se dividir um espaço, de estar muito tempo no mesmo quadradinho, e mesmo assim, as horas virarem minutos. Foram tantos pequenos amores, que eu nunca concordei com falar que "nós não demos certo". Demos certo sim, pelo tempo que foi, mas demos. Entrelaçamos dedos e histórias, ensinamos e aprendemos, nos conectamos para nos desconectar de outras histórias, nos perdemos e nos encontramos, amamos e pegamos ranço na mesma intensidade, porquê ser intenso é isso, deixar que um ser estranho te descubra, te enxergue, e te leve a se conhecer cada vez mais, sem medo de que a intensidade te leve para um lugar obscuro, pois de escuridão a paixão não tem nada, muito pelo contrário, ela nos acende, nos aquece, nos ilumina, nos preenche. Ame, sem medo, apenas ame. Se permita, se acenda.
                                         

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pandemia




E paramos. Paramos em meio a uma viagem em que não tínhamos data de retorno, uma viagem que nem sabemos o destino final. Fomos obrigados a parar. Obrigados a nos enxergar e a nos olhar de uma forma como nunca ousamos antes. Eu tinha um caminho traçado para mim nessa parte da minha viagem completamente diferente. Um caminho em que algumas pessoas existiam por ali, e que outras ainda não apareciam nele. Encontrei um percalço grande, que foi chamado de pandemia. Ninguém sabia como passar por ela, ninguém sabia nem como desviar, ninguém nem nunca tinha visto. Fui obrigada a me sentar no deck do meu barco, e apenas esperar. Esperar que eu ou alguém descobrisse como passaríamos por ele, e enquanto isso só me restou mudar o meu olhar. Parei, passei a mão pelo meu rosto. Senti minha pele ainda quente do nervoso com essa parada abrupta, senti a falta do frescor. Frescor de viver a vida como eu mais amo. Respirei fundo, contando meus famosos e tão usados 5 segundos, e me permiti olhar. Olhei para mim. Olhei para os meus amigos. Para minha família. Para minha vida. E ali eu parei. Parei e lembrei de cada vez que eu sorri com eles, de cada vez que eles me trouxeram bochechas e barrigas doloridas de gargalhadas. Lembrei de cada música cantada e compartilhada, de cada coreografia e dança feita, de cada festa, de cada amanhecer, de cada encontro, de cada troca. Eu amo estar com pessoas, eu amo me sentir viva. Coloquei a mão no meu coração, senti ele batendo de uma forma mais rápida do que eu reconheço, e vi que as dúvidas dessa parada estavam começando a gerar aquela famosa palavrinha: ansiedade. E eu queria deixar essa difícil viagem, o mais confortável que fosse para mim. Respirei fundo, olhei por cima do meu grande percalço, percebi um fio de luz, um ventinho vindo ao meu encontro, e me agarrei ali, por alguns minutos. Eu quero, eu desejo, eu almejo isso, eu espero, eu me contento com essa pausa. Enquanto eu esperava, assisti inúmeros sóis se pondo, enxerguei vários pássaros passando sobre mim, que me trouxeram reflexões infinitas e essenciais para que eu conseguisse depois, um dia, seguir viagem. E eu permaneci ali, esperando feliz, com memórias infinitamente boas, gostosas e leves, permaneci aguardando para poder continuar minha viagem, meu trajeto já feito, pronto apenas para mim. De uma certeza eu tinha: Quando esse percalço sair, e me permitir continuar até que eu chegue ao meu destino final, vou estar ainda mais forte, ainda mais pronta, ainda mais feliz. Meu coração estará cheio, mesmo estando sozinha por alguns instantes, e assim, meu caminho permanecerá intacto, sem que eu precise me desviar dele. Permaneço aqui, olhando, observando, lembrando, saudando, amando, desejando, almejando e esperando, mas sempre feliz, com meu fio de luz e o meu amado frescor, viva, e com meu melhor sorriso, de gratidão!

domingo, 26 de abril de 2020

Inteira por mim




Eu fui eu mesma. Fui coração, fui razão, fui carinho, fui cuidado, fui paixão. Mesmo com os medos, as travas, os receios, eu fui eu mesma. Controlando minha intensidade, mesmo gostando muito de sentir muito. Controlando minhas ansiedades, de querer que desse certo. Eu fui eu mesma. Me joguei, me preocupei, me atentei a cada ponto em que eu podia me expor, me colocar, me mostrar. Me mostrei quando cuidei, me mostrei quando percebi qual a sua cerveja preferida, me mostrei quando simplesmente quis estar com você. Me sentia leve por ser eu mesma, me sentia eu, sem nenhum problema em ser. Até o dia em que percebi, que apenas ser eu mesma não te bastava mais. Eu ser, não bastava mais para a nossa relação continuar. E não tinha um porquê, não existia um motivo. Eu não havia feito algo que te fizesse não querer mais, na verdade você queria, mas não sabia como sair da relação leve em que estávamos sem que ela virasse algo pesado para você. Você não conseguia querer ter, querer ser, querer ficar. Você me queria, mas me queria do seu jeito. Metade, e não completa. Metade eu nunca consegui ser. Sempre fui inteira, sempre me doei sem receios, sempre me mostrei do avesso, mesmo com os percalços sofridos por ser assim, eu nunca deixei de ser inteira. Estar com alguém que queria apenas a minha metade, era me diminuir para me caber em alguém, e isso eu não me permitia. Doeu te ver afastando, te ver fugindo de uma relação completa. Doeu te ouvir dizendo que não estava preparado para promessas. Doeu ouvir você se fechando, se negando a amar. Mas doeu mais ainda sentir que o certo a se fazer era continuar sendo inteira para mim mesma, me doar para mim, ser carinho, preocupação, amor e paixão apenas para mim. Permaneceria inteira, sem você, mas inteira. De metades eu não vivo, sinto muito, permanecerei sentindo muito. 

sábado, 28 de março de 2020

A arte do equilíbrio



E eu me pego em meio a pensamentos. Pensamentos de medo, de insegurança, que me geram ansiedades que eu achei que eu nem tinha mais. Como depois de sofrer e vivenciar tantos traumas em relacionamentos eu me permito viver outro? Como passar pelo começo de uma nova relação, em que não se conhece ainda o outro o suficiente para sentir segurança e verdade no que se é falado ali. Eu peço verdade, eu peço sinceridade. Eu demonstro tranquilidade, tento respirar fundo a cada nova sensação que eu tenho. É uma luta diária e constante, para conseguir que minhas ansiedades e medos não atrapalhem a nova história que surge em minha vida. Mas essa luta cansa, tem dias que eu só consigo não acreditar em nada, e em ninguém. Que eu me pego presa a sentimentos ruins que não foi a nova pessoa que me causou, e sim a antiga. Preciso parar, respirar fundo, buscar a realidade, tirar um pouco do emocional que habita em mim. Sou pura emoção, puro sentimento. Me envolvo, me doo, me entrego. Quando eu vi, já me deixei levar pelo meu coração bobo que parece que esquece mais fácil do que eu o que já vivemos. Fazer a linha entre ele e as memórias é exaustivo, é doloroso, e ao mesmo tempo que preciso deixar para trás, preciso me lembrar para não me deixar levar novamente sem ouvir o meu racional. Ainda não aprendi a me equilibrar, a viver sem andar em uma corda bamba o tempo todo quando me relaciono novamente com alguém. Não quero mais sofrer, quero apenas a leveza de uma relação tranquila e que leve paz ao meu coração e ao meu racional. Enquanto isso, permaneço lidando com a ansiedade de não conseguir alcançar o tão sonhado equilíbrio entre eu e você. Mas com a esperança de que ela irá de chegar, e eu irei saborear cada pedacinho dela, com clareza, amor, e leveza. Te espero, equilíbrio.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Entrelaços

E eu estava ali, deitada do seu lado, te vendo dormir. Vendo seus cachinhos caídos sobre o seu rosto, a sua perna em cima da minha, enroladas em uma coberta que tiramos toda do lugar antes de cairmos no sono. Parada te olhando, completamente sem sono enquanto você estava apagado, levei um susto quando você se mexe e procura minha mão, e quando a encontra, entrelaça seus dedos nos meus, me puxa para perto, sem nem abrir os olhos, e cai no sono profundo novamente.
Eu fiquei ali, olhando e pensando o quanto aquela cena tinha um significado enorme. Seus dedos entrelaçados nos meus, com tanta troca e intensidade, e tantas palavras que ecoavam sem nem precisarem ser ditas. Parei, e você nem sabe da existência da foto que eu tirei logo depois. Eu queria gravar a minha sensação quando você ali, me permitiu me abrir á você. Me abrir as oportunidades que você me traria, me abrir para sentimentos que eu nem sabia se ainda era possível que eu sentisse, me abrir para dormir do lado de outra pessoa, sem querer ir embora correndo, me abrir para criar uma história nova na minha vida, me abrir para te conhecer, me abrir para que você pudesse me conhecer, me abrir nas minhas risadas mais bobas, me abrir no meu jeito as vezes tolo de falar, me abrir para alguém. Eu fiquei ali, inerte, no medo de tudo que eu senti com apenas essa entrelaçada de dedos, no medo de me envolver, no medo da vontade que eu fiquei de te acordar e te puxar pra mais perto de mim ainda, no medo de sentir, no medo de amar. Inerte no sentimento de te querer, te querer comigo, te querer nas minhas histórias, querer que você soubesse de parte de mim que eu não mostrava a tanto tempo para outra pessoa, eu te queria, e saber que você também me queria me trouxe uma leveza que eu não conseguia sair dali mais. Da nossa cama, das nossas mãos, dos nossos toques, da nossa história, de nós dois. Ali, eu queria só te pedir para continuarmos nos entrelaçando, todos os dias, entrelaçar sentimento, vida e amor. Entrelaça comigo?